Usar a nota do ENEM para estudar em Portugal tornou-se uma das principais vias de entrada de brasileiros no ensino superior europeu. O processo é legítimo, acessível e bem estruturado.
Mas existe um erro recorrente que compromete esse projeto desde o início: acreditar que a aprovação académica, por si só, garante um recomeço seguro no país.
Não garante.
Entrar numa universidade portuguesa é apenas uma etapa. O que sustenta essa decisão no médio e no longo prazo é a integração entre três pilares: enquadramento jurídico correto, viabilidade financeira e regularidade migratória contínua.
Quando um desses elementos falha, o problema não aparece na candidatura. Ele surge depois, já com matrícula feita, custos assumidos e uma mudança de país em curso.
É por isso que estudar em Portugal não deve ser tratado como uma oportunidade isolada, mas como uma arquitetura de recomeço.
É possível usar o ENEM em Portugal?
Diversas instituições portuguesas aceitam a nota do ENEM no âmbito do concurso para estudante internacional, graças a acordos celebrados com o INEP. O próprio ENEM informa que suas notas podem ser utilizadas em instituições portuguesas que tenham acordo com o instituto.
Mas aqui está um ponto importante: não existe uma regra única válida para todas as universidades.
No concurso especial para estudantes internacionais, cada instituição define o seu regulamento, os seus critérios de seleção, os documentos exigidos, as vagas disponíveis e o calendário de candidatura. A DGES é clara ao indicar que os prazos e os atos do concurso são fixados pela própria instituição de ensino superior.
O acesso via ENEM e o Estatuto do Estudante Internacional
Esse ingresso ocorre, em regra, ao abrigo do Estatuto do Estudante Internacional, atualmente regulado pelo Decreto-Lei n.º 62/2018, que define as condições de acesso de candidatos que não possuem nacionalidade de um Estado-Membro da União Europeia.
Esse enquadramento jurídico não é apenas formal. Ele determina regras específicas de candidatura, regime de propinas e critérios de elegibilidade.
Nem todos os brasileiros, por exemplo, podem concorrer como estudantes internacionais. Pessoas com nacionalidade europeia, residentes legais em Portugal há mais de dois anos ou familiares de cidadãos da União Europeia podem estar sujeitos a regimes distintos de acesso.
Esse detalhe, muitas vezes ignorado, altera completamente a estratégia de candidatura. Não podem usufruir desta modalidade (devendo concorrer pelo regime geral de acesso, tal como os portugueses):
- Candidatos com dupla nacionalidade de qualquer país da União Europeia.
- Brasileiros que residam legalmente em Portugal há mais de dois anos, de forma ininterrupta, no momento da candidatura.
- Familiares de cidadãos portugueses ou da UE, conforme a legislação de reagrupamento familiar.
Como funciona a candidatura com o ENEM:
Ao contrário do Brasil, não existe uma “nota de corte” única nacional para Portugal. Cada instituição define a forma como utiliza o ENEM, os pesos das áreas, a validade temporal do exame e a nota mínima exigida para determinados cursos. A DGES orienta expressamente o candidato a consultar a informação da instituição pretendida e o regulamento aplicável.
A Fórmula de Cálculo
A maioria das instituições, como a Universidade de Coimbra, utiliza fórmulas de ponderação. Frequentemente, a nota do ENEM (0-1000) é convertida para a escala portuguesa (0-20 valores). Uma nota 600 no ENEM, por exemplo, pode ser insuficiente para determinados cursos em Coimbra, mas plenamente aceitável na Universidade do Algarve.
Os critérios comuns incluem:
- Nota Mínima: Muitas exigem um mínimo de 500 ou 600 pontos na redação e em áreas específicas do conhecimento.
- Pesos Diferenciados: Para uma Engenharia na Universidade do Porto, a prova de Matemática terá um peso significativamente maior do que a de Ciências Humanas.
- Vagas: As vagas para estudantes internacionais são fixadas anualmente e são independentes das vagas para estudantes nacionais/europeus.
Principais Universidades e Calendário de Candidaturas
Atualmente, mais de 50 instituições portuguesas aceitam o ENEM. No entanto, o prestígio e a exigência variam.
Universidades de Destaque
- Universidade de Coimbra (UC): A pioneira no acordo com o INEP. Oferece uma estrutura consolidada para brasileiros, informa que a nota mínima de candidatura para os cursos de graduação é de 100 valores na escala portuguesa de 0 a 200, equivalente a 500 pontos no ENEM, com exceções para alguns cursos. Também informa que aceita o ENEM realizado nos últimos 5 anos.
- Universidade de Lisboa (ULisboa): Localizada na capital, oferece a maior diversidade de cursos, porém enfrenta a maior crise habitacional do país, exigindo planejamento financeiro extra. Consulte as faculdades da ULisboa individualmente, pois cada uma pode ter calendários próprios.
- Universidade do Minho (UMinho): Conhecida pela inovação e por ter um dos custos de vida mais atrativos na região norte (Braga e Guimarães), aceita o ENEM realizado nos 4 anos anteriores ao ano da candidatura e que as áreas exigidas e os respetivos pesos variam conforme o curso.
O Cronograma (Candidaturas 2026)
O ano letivo em Portugal começa em setembro. As candidaturas geralmente ocorrem em três fases:
- 1ª Fase (Janeiro a Março): Maior número de vagas e ideal para quem precisa de tempo para o visto.
- 2ª Fase (Abril a Junho): Vagas remanescentes.
- 3ª Fase (Julho a Agosto): Fase residual, arriscada para quem ainda não iniciou o processo de visto.
A candidatura é feita diretamente junto à instituição de ensino, respeitando o regulamento anual de cada universidade.
Isso inclui prazos próprios, fases distintas e critérios específicos para cada curso.
A ausência de padronização exige um cuidado adicional: interpretar corretamente o edital de cada instituição.
Erros nessa etapa não costumam ser evidentes. Muitas vezes, o candidato acredita estar apto, mas não atende a requisitos específicos do curso, como ponderação mínima em determinada área do ENEM ou documentação exigida em formato específico.
Esse tipo de falha não invalida o esforço. Mas pode inviabilizar a aprovação.
Planejamento Financeiro: Propinas e Custo de Vida
O termo “propina” refere-se à anuidade escolar. Estudar em Portugal como estudante internacional envolve um regime de custos distinto daquele aplicado a estudantes portugueses.
As propinas variam conforme a instituição e o curso, podendo ultrapassar os valores praticados no ensino público brasileiro.
Enquanto um estudante português paga cerca de 697 € por ano em uma universidade pública (valor fixado por lei para o regime geral), o estudante internacional pode pagar entre 3.000 € e 7.000 € anuais, dependendo do curso e da instituição.
- Exemplo: Na Universidade de Aveiro, os valores para internacionais são revistos anualmente, mas costumam situar-se numa faixa intermediária competitiva.
Mas o custo mais sensível não está apenas na universidade. Está na manutenção da vida no país: Alojamento, alimentação, transporte, documentação e seguro de saúde compõem uma estrutura financeira que precisa ser pensada com antecedência.
Lisboa e Porto, por exemplo, enfrentam forte pressão no mercado imobiliário, o que impacta diretamente o custo mensal de um estudante.
A ausência desse planejamento não impede a entrada no país. Mas compromete a permanência.
Para fins de visto e autorização de residência, o governo português exige a comprovação de meios de subsistência. O valor base é o Salário Mínimo Nacional (SMN). Para 2026, é prudente considerar um planejamento que cubra:
- Alojamento: De 400 € (quarto em cidade do interior) a 800 € (quarto ou pequeno estúdio em Lisboa).
- Alimentação e Transporte: Aproximadamente 300 € a 400 € mensais.
- Seguro Saúde: Seguro privado ou o PB4 (acordo Brasil-Portugal), que é essencial para o atendimento no Serviço Nacional de Saúde (SNS).
A etapa migratória é independente da aprovação académica
A carta de aceitação da universidade não garante a entrada ou permanência em Portugal. O processo migratório é uma etapa própria, com exigências específicas e análise rigorosa por parte das autoridades.
Após a matrícula, o estudante deve solicitar o Visto D4 ainda no Brasil e, após a chegada a Portugal, converter esse visto em uma autorização de residência.
Ao chegar em Portugal com o visto, o estudante tem um prazo para se apresentar à AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo). O visto colado no passaporte é temporário; o que garante a legalidade a longo prazo é o Cartão de Residência.
Alerta Jurídico: Atrasos no agendamento da AIMA são comuns. Manter a documentação organizada e seguir rigorosamente os prazos de renovação da AR é vital para evitar a irregularidade, que pode impedir viagens pela Europa e até gerar processos de expulsão.
Erros Comuns no Planejamento de Estudantes Brasileiros
Como escritório especializado, identificamos falhas recorrentes que comprometem o sucesso do projeto:
- Ignorar o Edital Específico: Cada faculdade (ex: Direito vs. Engenharia) dentro da mesma universidade pode ter pesos diferentes para as notas do ENEM.
- Subestimar o Custo de Vida em Lisboa/Porto: Muitos alunos conseguem a vaga, mas não conseguem manter-se devido ao mercado imobiliário agressivo.
- Apostilamento de Haia: Documentos escolares brasileiros não têm validade em Portugal se não estiverem devidamente apostilados em cartório no Brasil.
- Trabalho vs. Estudo: Embora a lei permita que estudantes trabalhem (com comunicação prévia à AIMA), o curso em regime integral muitas vezes inviabiliza jornadas de trabalho extensas. O foco deve ser o estudo para garantir o aproveitamento escolar e a renovação do título de residência.
Estudar em Portugal com a nota do ENEM é uma oportunidade extraordinária de internacionalização acadêmica e profissional. Contudo, a facilidade de acesso via exame nacional não deve ser confundida com simplicidade de execução.
O sucesso desse projeto de vida depende de uma análise técnica da viabilidade financeira e de uma condução jurídica impecável dos processos de visto e residência. Se o seu objetivo é construir uma trajetória sólida na Europa, o planejamento deve começar muito antes da divulgação dos resultados do ENEM.
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